domingo, 19 de junho de 2011

Redes sociais derrotam Berlusconi

Do homem primitivo a Berlusconi
O plebiscito na Itália ocorrre em um momento em que Berlusconi está envolvido em três processos judiciais, que incluem acusações de suborno, fraude e prostituição de uma menor de idade de 17 anos, este último conhecido como Caso Ruby.
Enquanto aqui no Brasil a mídia colonizada chora as dores de Berlusconi e da juventude fascista que protestam contra a libertação de Cesare Battisti, por lá o povo derrotou o magnata das comunicações no plebiscito de domingo. De uma vez, votaram pelo fim do uso da energia nuclear, contra a privatização dos serviços de águas e esgotos e, principalmente, contra privilégios aos altos escalões do governo perante tribunais: a lei de “legítimo impedimento” (a imunidade penal, que permite a Berlusconi não comparecer aos seus julgamentos alegando deveres de chefe de Estado), fato que ainda persiste em paises retrógrados e reacionários como o Brasil.
Os dados apontam que as quatro consultas teriam alcançado 57% de participação, o que as torna válidas. Pela lei italiana, uma consulta popular precisa de 50% e mais um voto para ter valor legal. As respostas aos questionamentos foram favoráveis à revogação em 96% dos casos.
Os sinais de novidade já estavam visíveis durante a campanha eleitoral para o referendo que decretou - na segunda-feira passada - uma nova derrota do governo Berlusconi. Foi uma campanha sem comícios nem cartazes. As televisões italianas receberam ordens de dar pouco destaque, ou mesmo ignorar o referendo. Vale lembrar que Sílvio Mussolini Berlusconi é dono do conglomerado de mídia Mediaset, um dos maiores da Europa, com diversas editoras e emissoras de tevê em seu espólio. De nada adiantou.
Isso porque a Internet, em compensação, falou - e muito. Sites como Facebook, Twitter e YouTube foram os grandes protagonistas de uma campanha eleitoral que pela primeira vez na Itália foi feita sem a presença antiga e tradicional dos partidos políticos. Desde 1995, nenhuma consulta do gênero conseguiu atrair tanta gente às urnas.
O governo Berlusconi ainda mantém maioria no Parlamento devido ao apoio da Liga Norte, mas a oposição já pede que ele se demita. Porém, Berlusconi garante que fica no poder até o fim de sua legislatura em 2013.
Vídeos cômicos foram uma das armas
Os italianos decretaram com seu voto que não aprovam os planos para a construção de usinas nucleares no país, que não aceitam a privatização da rede hídrica, e revogaram a lei que permite a ministros - e principalmente ao primeiro-ministro - não comparecer às audiências de processos em que são réus, alegando o chamado "legítimo impedimento", ou seja a impossibilidade de ir à corte por compromissos de governo. Esta impunidade que a Itália rechaça e que no Brasil é lei que protege os politicos eleitos com julgamentos privilegiados ou mesmo que nunca serão julgados. Vale lembrar a emenda à Constituição do Estado do RIo, do deputado Zaqueu Teixeira, do PT do Rio, que blinda autoridades, impedindo a ação da justiça e com isto garantindo a impunidade aos criminosos do Estado que exercem cargos públicos.
A TV ficou calada por ordens de seu chefe, o novo Mussolini italiano: Berlusconi. Mas os internautas discutiram tudo sem limites e sem censura. E festejaram a grande vitória popular, decretada por esmagadores 96% dos votos contra o governo. E tudo isso com outra grande novidade na política italiana, que sempre se levou muito a sério: o uso maciço do bom humor e da irreverência no território livre da Internet.

Uma profusão de vídeos se encarregou de desmantelar a imagem de Berlusconi.
A pegadinha mais divertida e clicada na web foi a paródia do filme "Apertem os cintos, o piloto sumiu!": num avião todo decorado com os símbolos do PDL (Il Popolo della Libertà - o partido berlusconiano). Uma aeromoça comunica aos passageiros que voltam de um fim de semana na mansão de Berlusconi, em Antigua, evidentemente com tudo pago com o dinheiro do estado, do contribuinte, que, apesar das tentativas de boicote ao voto, os italianos foram às urnas em massa. Além de revogarem a privatização da água e das usinas nucleares, revogaram também a imunidade judiciária do "capo". Estas notícias causam  pânico entre os passageiros.
O autor do vídeo é Mauro Casciari, famoso no YouTube com o seu canal La Voce del Padrone, especializado em humor político, com muitas outras pegadinhas, como a de Berlusconi que interrompe a oração do Angelus do Papa com um telefonema indignado. Inúmeros outros Videos foram produzidos.
Berlusconi - um retrocesso
Num momento em que o governo sofreu a segunda derrota em 15 dias - a primeira foi nas eleições locais, em que Berlusconi perdeu Milão e Nápoles - ficou evidente que a direita italiana não tem a menor consciência do poder da Internet. Berlusconi continua falando de "cassetes", ignorando até mesmo a existência dos DVDs. Aos 74 anos, ele continua agarrado ao único meio de comunicação que conhece, domina e possui: a TV, a outra grande derrotada do referendo.
Enquanto isso, as redes sociais se preparam para uma nova batalha, desta vez para revogar a lei eleitoral italiana, que não deixa os eleitores votarem em candidatos, mas só em partidos e coalizões. Por enquanto, nada de comícios e passeatas. O debate ferve no Twitter e no Facebook, onde há quase 20 milhões de usuários italianos, numa população de 60 milhões.
A Internet salvará a liberdade da informação e com ela será dificil dar uma só versão da informação.
Telecamera nascosta
Prostíbulo televisivo
Io sono Berlusconi ...
Meleca




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Mamma mia, Pisapia!
Pânico a bordo

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domingo, 5 de junho de 2011

Mais um agricultor foi morto no Pará

Mais um agricultor foi morto no Pará. Esta já é a quarta morte em uma semana. O corpo foi encontrado no sábado, dia 28 na mesma área onde morreram José Claudio e Maria do Espírito Santo.
Segundo o advogado da Comissão Pastoral da Terra em Marabá, José Batista Afonso, a vítima é Erenilto Pereira dos Santos, de 25 anos, que levou um tiro na cabeça. Ele seria uma das testemunhas que viram os suspeitos de matar o casal ambientalista José Claudio Ribeiro da Silva e Maria do Espírito Santo da Silva, mortos na terça-feira, dia 24 de maio.
Veja abaixo video depoimento de José Cláudio Ribeiro da Silva.
Velorio Jose Claudio e Maria do Espirito SantoNa sexta-feira, dia 27 de maio, o agricultor Adelino Ramos, de 56 anos, foi assassinado em Vista Alegre do Abunã, um distrito de Porto Velho, em Rondônia. Segundo informações da Comissão Pastoral da Terra (CPT), Dinho, como era conhecido, foi alvejado por um motociclista quando estava em seu carro na companhia da esposa e de duas filhas. 
Ele chegou a ser socorrido em um hospital, mas não resistiu aos ferimentos. Segundo a CPT, Ramos vinha sendo ameaçado há algum tempo por madeireiros da região. A pressão teria piorado após ações do Ibama que resultaram em apreensão de madeira extraída ilegalmente e de cabeças de gado.
Ramos era um dos sobreviventes do massacre de Corumbiara, ocorrido em 1995 em Rondônia, e integrava o Movimento Camponês de Corumbiara. Apontado pelos latifundiários locais como um dos líderes do movimento, o camponês passou a sofrer perseguições, assim como o filho, Claudemir Ramos,
Como é comum no Brasil, de vitimas foram transformados em criminosos pela justiça de Gilmar Mendes: os dois chegaram a ser processados com base na investigação do Ministério Público Estadual, que por sua vez levou em conta a apuração conduzida pela Polícia Civil, dominada pelas madeireiras do local. Claudemir acabou condenado e, desde 2004, é dado como foragido. Adelino se livrou do processo, mas não das perseguições. Pai e filho não se viam há dez anos.
O Massacre de Corumbiara
O massacre de Corumbiara foi o resultado de uma ação violenta de jagunços e policiais ocorrido em 9 de agosto de 1995 no município de Corumbiara, ao sul do estado de Rondônia. O conflito começou quando policiais e jagunços foram desalojar camponeses sem-terra que estavam ocupando uma área.
    Video Massacre de Corumbiara parte 1/2
Em agosto de 1995, cerca de 600 camponeses haviam se mobilizado para tomar a Fazenda Santa Elina, tendo construído um acampamento no latifúndio improdutivo. Na madrugada do dia 9, por volta das três horas, pistoleiros armados, recrutados nas fazendas da região, além de soldados da Polícia Militar com os rostos cobertos, como se fossem bandidos, criminosos, iniciaram os ataques ao acampamento.
Mulheres foram usadas como escudo humano pelos policiais e pelos jagunços do fazendeiro Antenor Duarte. A pequenina Vanessa, de apenas seis anos, teve o corpo trespassado por uma bala "perdida", quando corria junto com sua família. Cinquenta e cinco posseiros ficaram gravemente feridos. Os laudos tanatoscópicos provaram execuções sumárias. O bispo de Guajará Mirim, dom Geraldo Verdier, recolheu amostras de ossos calcinados em fogueiras do acampamento e enviou a Faculté de Médicine Paris-Oeste, que confirmou a cremação de corpos humanos no acampamento da fazenda.
Desde 1985 os camponeses se organizavam, tendo criado as vilas de Alto Guarajús, Verde Seringal, Rondolândia, e mais tarde o povoado de Nova Esperança - posteriormente cidade de Corumbiara. Dez anos depois, foram vítimas da chacina. E até hoje os parentes das vítimas aguardam a indenização. É uma das vergonhas de Rondônia. É uma das vergonhas nacionais.
    Video Massacre de Corumbiara parte 2/2
A assessoria jurídica da CPT RO e a CJP (Comissão Justiça e Paz de Porto Velho) acompanham o processo judicial a favor da indenização das famílias vítimas da chacina.

O PMDB e o Ministério da Agricultura
Quando o vice-presidente, Michel Temer, chama o ministério da agricultura de 'ministério de merda', fato amplamente noticiado nos jornais de sabado dia 28 de maio, fica claro, para todos, a importância  (de merda) que o PMDB, aliado do governo, dá a reforma agraria no Brasil e a necessida de  mudanças nas relações agrárias e na questão da propriedade rural.
Não há como, depois destas palavras, apagar da memória e superar o massacre de Corumbiara, em que Dinho, Adelino Ramos, foi um dos líderes do movimento e um sobrevivente, assim como o filho, Claudemir Ramos.
O massacre foi realizado pelo Comando de Operações Especiais, comandado na época pelo capitão José Hélio Cysneiros Pachá, que jogou bombas de gás lacrimogênio e acendeu holofotes contra as famílias. A chacina ocorreu no governo do agora senador Valdir Raupp (PMDB).
Ou seja, os patifes, bandidos, responsáveis pela impunidade do massacre, alojam-se hoje na mesma sigla: o PMDB. Com isto, sai governo, entra governo, continuam sempre em postos importante, seja como vice-presidente ou como senador.
Por falar em impunidade, quando se defende a anistia a (des)matadores, que é o que Aldo Rabelo do PCdoB faz, isto representa, em sua essência, a defesa da impunidade e a anistia, antecipada, aos matadores. Matadores e desmatadores assim se confundem e se mantem impunes.
Não adianta as pretensas boas leis de hoje se amanhã alguém virá defender no congresso uma lei que irá perdoar os crimes de hoje. Isto, no fundo, representa a mais descarada e cinica defesa da impunidade.
Fatos relacionados:
O filme “Corumbiara”, de Vincent Carelli, relata outro massacre na década de 1980, neste caso de indios na Gleba corumbiara, ao sul do estado de Rondonia. O filme foi premiado em diversos festivais no Brasil e continua recebendo vários convites para participação em mostras e festivais.
A seguir, a sinopse do Filme:
“Corumbiara”, 117 min, 2009, de Vincent Carelli. Em 1985, o indigenista Marcelo Santos, denuncia um massacre de índios na Gleba Corumbiara (RO), e Vincent Carelli filma o que resta das evidências. Bárbaro demais, o caso passa por fantasia, e cai no esquecimento.
Marcelo e sua equipe levam anos para encontrar os sobreviventes. Duas décadas depois, “Corumbiara” revela essa busca e a versão dos índios...

domingo, 15 de maio de 2011

13 de maio e o Haiti

Toussaint L'Ouverture
No Brasil se comemora, como grande feito, a abolição da escravidão em 13 de maio de 1888, como um belo produto de um império vergonhosamente decadente que, já que nada mais tinha a esperar ou nada mais conseguia produzir, se dispunha a mais uma concessão impossível de continuar reprimindo. O Haiti já tinha, nesta época, acabado com a escravidão há 84 anos, na única revolta de escravos vitoriosa da humanidade, poupando com isto as mortes por maus tratos, torturas e privações de 84 anos a mais que o Brasil humilhantemente contabiliza.
O Haiti foi o primeiro pais que conquistou a independencia nas Americas, depois dos EEUU, em 1804, após batalhas, revoltas e insurreições no período de 1791 a 1804, em boa parte influencidas pelas idéias da Revolução Francesa de 1789.
Considera-se a Revolução Francesa de 1789 o acontecimento político e social mais espetacular e significativo da história contemporânea. Foi o maior levante de massas até então conhecido que fez por encerrar a sociedade feudal, atrasada, levando a queda do antigo regime e abrindo caminho para a sociedade industrial, burguesa e mais avançada.
Nenhuma outra revolta de escravos da humanidade conseguiu resultados comparáveis as vitórias da revolta de escravos do Haiti que conseguiram se separar da metropole francesa, em uma luta original em que conseguiram derrotar o melhor, maior e mais bem armado exército do mundo: o exército frances de Napoleão Bonaparte.
Para entender melhor esta luta é necessário realçar a personalidade da figura que liderou a rebelião: Toussaint L´Overture, que para muitos historiadores foi um lider notável em uma época de lideres notaveis.
A ambição frustrada de Napoleão Bonaparte e da burguesia francesa e o ódio que tinham do 'escravo rebelde' fez com que armassem uma enorme frota em 1802 para invadir o Haiti, sob o comando do general Victor Emmanuel LeClerc, esposo da sua irmã Paulina. O plano era desarmar os haitianos, deportar Toussaint e restaurar a escravidão - este aviltamento final da Revolução Francesa de 1789. O general negro (Toussaint L´Overture) foi convidado para chegar a um acordo num dos navios, mas foi preso, traido e enviado ao forte de Joux situado na França, nas montanhas do Jura. Napoleão decidiu matá-lo por maus tratos, frio e fome. Seus carcereiros o humilhavam, diminuiram sua comida e quando chegou o inverno, reduziram sua cota de lenha para aquecimento. Não é muito diferente a que Bradley Manning, o soldado norte-americano preso em maio de 2010 no Iraque, supeito de ter passado informações restritas ao site WikiLeaks , é submetido nos EEU.
Logo Toussaint L´Overture foi achado morto, “sentado, com a testa encostada ao muro da chaminé, em 7 de abril de 1803”. Este foi mais um crime covarde cometido por ordens de Napoleão Bonaparte. A luta de Toussaint e sua morte  é muitas vezes citada como uma das tragédias da humanidade.
A Revolução Haitiana, também conhecida por Revolta de São Domingos (1791-1804) foi um período de conflitos brutais, revoltas, insurreições contra a tirania da escravidão e sublevações na colônia de São Domingos, única forma de se eliminar a escravidão e alcançar a independência do Haiti como a primeira república governada por pessoas de ascendência africana. Apesar de centenas de rebeliões ocorridas no Novo Mundo durante os séculos de escravidão, apenas a revolta de São Domingos, que começou em 1791, obteve sucesso em alcançar a independência permanente, sob uma nova nação. A Revolução Haitiana é considerada como um momento decisivo na história dos africanos no novo mundo.
A obra de C. L. R. James, Os Jacobinos Negros, descreve estes fatos, dando uma abordagem histórica revolucionária. Este livro foi lançado pela primeira vez em 1938, as vesperas da 2a. Guerra Mundial e nele C. L. R. James aproveita, fazendo um paralelo da situação fascista vivenciada naquele momento, com a revolução haitiana e ataca 'os liberais e social-democratas que hesitam até que o machado do fascismo caia em suas cabeças, ou um Franco comece a sua contrarevolução cuidadosamente planejada'.
Diferentemente do livro de C.L.R. James, que é um documento histórico, está o livro de Isabel Allende: 'La Isla Bajo el Mar', publicado em 2009, que é um romance justamente sobre este periodo. Quando comecei a ler me surpreendi com datas e lugares históricos e pude constatar, após uma pequena pesquisa que ela, Isabel Allende, sobrinha de Salvador Allende, descrevia, verdadeiramente fatos históricos.  Depois em uma entrevista Isabel afirma que, após um longo estudo histórico sobre a revolta de escravos do Haiti, despertou um dia com a idéia da personagem Zarité Sedella que percorre as páginas do romance.
Assim, Isabel Allende, apresenta Zarité:
'Em meus quarenta anos, eu, Zarité Sedella, tive melhor sorte que outras escravas. Vou viver longamente e minha velhice será feliz porque minha estrela - mi z'etoile - brilha também quando a noite está nublada. Conheço o gosto de estar com o homem escolhido por meu coração quando suas mãos grandes excitam a minha pele.'

quinta-feira, 14 de abril de 2011

A quem interessa confundir doença mental e violência?

A questão que vale no caso de Realengo, e que é a real, é a questão do doente mental e da juventude que não recebem o devido apoio no Brasil.
O doente mental teve um  tratamento deteriorado no pais, principalmente após a  implantação da ditadura em 1964.
Nomes como Nise da Silveira, médica psiquiatra, nascida em Maceió em 15 de fevereiro de 1905, falecendo em 30 de outubro de 1999, com 94 anos, no Rio de Janeiro, contribuiram significativamente para um melhor tratamento do doente mental no Brasil.
Pela posse de livros marxistas, foi levada  à prisão em 1936 no presídio da Frei Caneca por 18 meses.
Neste presídio também se encontrava preso Graciliano Ramos. Assim ela tornou-se um dos personagens do livro Memórias do Cárcere.
Em 1944 é reintegrada ao serviço público e inicia seu trabalho no "Centro Psiquiátrico Nacional Pedro II", no Engenho de Dentro, no Rio de Janeiro, onde retoma sua luta contra as técnicas psiquiatricas que considera agressivas aos pacientes.
Por sua discordância com os métodos adotados nas enfermarias, recusando-se a aplicar eletrochoques em pacientes, Nise da Silveira é transferida para o trabalho com terapia ocupacional, atividade então menosprezada pelos médicos. Assim em 1946 funda nesta instituição a "Seção de Terapêutica Ocupacional".

Co-terapeuta
Co-terapeuta
No lugar das tradicionais tarefas de limpeza e manutenção que os pacientes exerciam sob o título de terapia ocupacional, ela cria ateliês de pintura e modelagem com a intenção de possibilitar aos doentes reatar seus vínculos com a realidade através da expressão simbólica e da criatividade, revolucionando a psiquiatria então praticada no país.
Foi uma pioneira na pesquisa das relações emocionais entre pacientes e animais, que costumava chamar de co-terapeutas.
Através do conjunto de seu trabalho, Nise da Silveira introduziu e divulgou no Brasil a psicologia junguiana. Ela tem um vasto reconhecimento internacional com inúmeras obras publicadas.

Hospital Nacional dos AlienadosHospital Nacional dos Alienados A foto ao lado mostra o Hospício Nacional dos Alienados, na Praia da Saudade, Urca, Rio de Janeiro.
O prédio foi iniciado em 1842 e inaugurado em 1852, como Hospital Pedro II,  imperador que deu apoio tendo em vista os  parentes que tinha: a mãe D. Maria I de Portugal, a Louca, e o pai, D. Pedro I, que sofria de epilepsia.
D. Maria I, levou a morte o seu filho primogênito, que  ela havia impedido de  vacinar contra a varíola, por motivos religiosos.
Em 1890 tomou o nome de Hospital dos Alienados e assim funcionou até 1944 quando os pacientes foram removidos da Praia Vermelha para o novo hospício construído no Engenho de Dentro.
O prédio passou a ser usado pela Reitoria da Universidade do Brasil, hoje UFRJ.
Esta mudança, colocando o doente mental mais distante das áreas nobres, saindo da Urca para o Engenho de Dentro, indica já a desvalorização dada ao tratamento ao doente mental.
Poderiamos, inclusive, dizer que o estudo cientifico, a Universidade, expulsou o doente mental para ocupar o seu lugar no final da década de 1940. O louco e o estudante, trocam assim de lugar.
Como também, mais tarde, em 1966 e 1968, a policia, não aceita as ebulições estudantis  por mais liberdade e mais avanços  e invadem a Universidade, impondo de novo a loucura no ambiente cientifico, que perdura até a década de 1980.
Loucura, ciencia e repressão disputam o mesmo terreno, um expulsando o outro. O Hospital Nacional dos Alienados é um exemplo tipico do nosso pais, retratando bem a nossa sociedade, onde se misturam problemas e soluções, passado e futuro, avanços e retrocessos.
Não é a toa que Wellington Menezes de Oliveira, em surto psicotico, volta a escola e realiza o massacre de crianças, que representam o futuro, para que não houvesse futuro nem para ele e nem para ninguém.
O 'bullying', prática importada,  nomeada culturalmente  seguindo a sociedade doente, esquizofrenica, norte-americana, pode não ter sido o único motivo que fez com que ele causasse o assassinato em massa, mas foi um deles, segundo a carta que ele mesmo escreveu e deixou.
Não pode a sociedade brasileira se deixar tornar refém da esquizofrenia e das neuroses de guerra dos Estados Unidos e a prática absolutamente esdruxula em que um individuo que recebe o premio Nobel da Paz é hoje o Senhor da Guerra e, sabendo da posição brasileira de não atacar a Libia, é daqui que Obama manda bombardear, desrespeitando a nossa hospitalidade.
É impossivel deixar de ver alguma causa e efeito, por menor que seja.
O fato ocorrido em Realengo mostra o abandono dos nossos doentes e o abandono do nosso ensino e das nossas crianças, dos nossos jovens.
Só se fala em Wellington como assassino e não como doente, justamente para esconder o doente e o abandono da nossa juventude.
Entre os extremos da loucura, nos últimos 16 anos de governantes o que vimos foi um professor universitario, FHC, sucatear o ensino e um semianalfabeto, Lula, resgatar este mesmo ensino. Para evitar novas tragedias, Dilma tem que continuar este trabalho do Lula e fazer muito mais ainda.

Teremos tempo, nós e Dilma, para evitar uma nova tragedia e impedir que os apologistas da violencia, enrustidos em campanhas de desarmamento, desvirtuem a evolução da nossa juventude?

Pedro Alves

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

O sorriso de um anjo

        Estava eu na festa dos companheiros, amigos e filhos dos 70 no Fiorentina, quando vi uma linda companheira me olhando. Mais parecia um anjo olhando um saci, feio e velho. Por alguns instantes tive a nitida impressão que ela ia bater as asas, afastando todos nós, para ocupar ela, sozinha, todo o espaço do salão do Fiorentina. Ao seu lado estava uma outra companheira, loura, forte, alemã. Com certeza sua protetora e guarda-costas.

        Aquele anjo se aproximou e disse:
        - Tenho certeza que conheço você!
        Fiquei sem dizer nada. Eu é que tenho certeza que jamais visitei o paraiso. Pelos lugares que passei só encontrei o que me lembrava o inferno e seria impossível ter conhecido aquele anjo que poderia ter, talvez um 35 anos, não mais. Eu, com os meus 65 anos, estarva mais preparado e pronto para morder a moeda e terminar de atravessar o rio da vida pagando ao balseiro a travessia.
        Mas, ela insistia:
        - Seu rosto me é muito familiar!

        Aos poucos fui aceitando trocar uma prosa: se chamava Rita Guerra e a loura ao  lado era Renata Guerra, sua irmã. Devagar fui tomando consciencia que estava em terra e descobrindo a velha companheira Ritinha do Chile. Quando a conheci devia ter uns 15 ou 16 anos, casada com o Julinho.
        Então tudo me veio a lembrança. Claro que conhecia a Ritinha. Não porque tinha um dia visitado o paraiso, mas sim porque ela também tinha passado pelo inferno, se queimado barbaramente no Chile e passado 45 dias em uma CTI, cuidando das queimaduras.
        Procurei ver como estava, as sequelas do inferno, das queimaduras, do golpe do Pinochet e de tantos outras maldições. Então vi que ela estava bem, reconstruido a vida e seguido em frente. Isto me deixou extremamente feliz.

        Este foi mais um encontro para constatar quantos de nós sobreviveram e reconstruiram suas vidas  e continuam vitoriosos pese a todos os reveses.
        Relaxei por um instante e dei dois passos para o lado, topando com o Cardozinho que me olhou com aquele enorme olhar lânguido e carente:
        - Pedro: essa companheira me olhou e gostou de mim, me sussurou!
        Sem pestanejar, me virei para a Rita e disse:
        - Rita: este é o Cardozinho. Ele está apaixonado por você!
        Por um momento pensei que o Cardozinho fosse desmaiar ou me bater. Nenhuma das duas opções ocorreu. Aparentemente o papo continuou normalmente.

        Fui então me sentar e conversar com o velho companheiro Derly de Carvalho. E estava num bom papo quando o Cardozinho veio e  se sentou ao meu lado, falando:
        - A Rita gostou de mim, disse ele!
        - Droga Cardozinho, vê se ti manca cara. Será que toda mulher que te olha você pensa que gosta de você?
        E continuei tascando o pau no Cardozinho, para ver se ele se mancava. Mas ele insistia:
        - A Rita gostou  de mim ... repetia.
        Haja carência e narcisismo! E eu continuava a dizer que ele precisava se cuidar, caramba!
        O Derly vendo aquela insistencia do Cardozinho, e o ridiculo da situação, se escancarava de tanto rir. Eu comecei a recear que a qualquer momento o Derly fosse se jogar no chão de tanto gargalhar. Seria uma situação muito bizarra!

        Lá pelas 11 horas da noite o Cardozinho pegou um taxi e foi para casa com o Luizão. Fiquei com pena dele, do Luizão.
        Por volta de 1 hora da manhã saimos, eu e o Derly, da festa e ele  foi pernoitar em minha casa.

        Chegando em casa ficamos batendo papo até 3/4 horas da manhã.
        O companheiro Derly contou as peripécias pelas quais passou, desde 1966 quando fez a academia militar chinesa e conheceu pessoalmente Mao Tse Tung,  até o retorno e os trabalhos que fez pelo Brasil depois da anistia.
        Em uma das visitas que fez a uma cidade do interior de São Paulo, diz o Derly que, chegando na cidade, se hospedou em um pequeno hotel. Lá pelas 10 horas da noite sai para dar um passeio e aproveitar os ares do povoado.
        Caminhando no meio da noite viu, indo em sua direção, um homem alto com um sobretudo até o joelho, fechado. Sem pestanejar o Derly foi também firme em direção ao desconhecido.
        Comentei:
        - Caramba Derly, só podia ser um pistoleiro. Como é que você se safou dessa?
        - Continuei firme indo em direção ao sujeito. Quando estava a dois metros de distância, o sujeito abre o sobretudo e os braços ....
        - Já sei: te apontou uma arma?!
        - Não! Ele falou bem alto: grande Derly. Há quanto tempo ...!
        - Mas, caramba, fala o Derly, não tinha a menor ideia quem era o sujeito. Mas, para não decepcionar, gritei:
        - Há quanto tempo! O que é que você tem feito! E dei-lhe um grande abraço, como se o conhecesse realmente há muito tempo ...
        - Nos despedimos e segui em frente, relata o companheiro. Um pouco adiante, parei, voltei e segui o sujeito para ver quem era e para onde ele ia ....

        Admiro companheiros como o Derly. Eu não teria esta agilidade e traquejo que  teve, não reconhecendo o sujeito mas se fazendo um grande amigo. Acho que estou enferrujado. E pude constatar isto no domingo quando fomos eu e a Elena minha filha ao aniversário da Maria Claudia em Maricá.
         Lá estavam o Paulo Gomes, Tereza Ângelo e as filhas junto com o Adair, o Colombo e a Jesse. Ai pude constatar que o Adair, com aquele eterno 'sorriso' também perdeu todo jogo  de cintura. Tampouco se lembrava com quem esteve no cinema  há 40 anos atrás nem se lembrava do Cardozinho. Mas, caramba, que fazer diante de tanta insistência do Cardozinho, que teimava em dizer, durante todo o aniversário da Maria Claudia, que  conhecia êle e tinham ido juntos  ao cinema em 1969?
         Não custava nada o 'Sorriso' dizer:
        - Você não mudou nada, Cardozinho! Que filme bacana a gente viu!

Rio, 5 março 2011
Pedro Alves

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Revolta (da Chibata) contra a sociedade punitiva e da ostentação dos suplicios

A Revolta dos Marinheiros de 1910, também conhecida como a Revolta da Chibata, em que participaram 2.379 marujos, começou no encouraçado Minas Gerais, recém recebido na Inglaterra. O palco era a cidade do Rio de Janeiro com um milhão de habitantes.

O governo do Marechal Hermes da Fonseca (1910-1914) apenas começava, depois das primeiras eleições competitivas da República Velha, nas quais concorreram o marechal Hermes da Fonseca, apoiado por Minas Gerais e pelo coronel gaúcho Pinheiro Machado, unindo oligarquias de diversos estados, e Rui Barbosa, apoiado pelas oligarquias de São Paulo e Bahia, em um pais de 20 milhões de habitantes.

Marinheiros brasileiros haviam ido para a Europa esperar a entrega das novas naves Minas Gerais e São Paulo e lá se deram conta de que a chibata não era mais aplicada. Tomaram conhecimento da revolta do encouraçado russo Potemkin e dos direitos e das liberdades individuais através dos movimentos sociais bastante fortes na Europa nesta época e já se antevendo o conflito da primeira guerra mundial, com os paises se armando.

Na véspera da Revolta o Comandante Batista das Neves havia punido um marinheiro com 25 chibatadas, a pena máxima prevista em lei, mas que foi aplicado em verdade  250 chibatadas.  A puniçao e o suplicio eram publicos fazendo-se questão de grande ostentação. Ao raiar do dia, toda a tripulação fora chamada ao convés do Minas Gerais para assistir aos castigos corporais a que seria submetido o marinheiro Marcelino Rodrigues Menezes. Os oficiais assistiriam à cerimônia em uniforme de gala, com luvas brancas e armados de suas espadas.

A compaixão e a piedade, que são caracteristicas do ser humano, independente de sua crença  ou  religião, ficam atiçadas com o  espetáculo do açoite, que lembra os navios negreiros. Impossivel não se sensibilizar a menos que humano não fosse ou há muito tivesse deixado de ser. Os comandantes loiros e brancos, como deuses que se consideravam, demonstram eles terem perdido os sentimentos humanos, mas tampouco  terem  adquirido os sentimentos divinos da misericordia que até ao inimigo se concede.

Segundo relatos atuais retirados do sitio da 'Associaçao dos Oficiais da Reserva do RJ', que pode ser visto clicando aqui, diz que o militar 'Cumpria o doloroso dever dos Comandantes ao julgar um subalterno ....'. Doloroso dever? De chicotear? É capaz destes militares virem dizer que ainda está doendo nas costas deles e não nas costas do marinheiro. Não conseguem, depois de cem anos, reconhecerem os erros, as crueldades e a tirania.

Os militares e, com eles os tecnicos das disciplinas, elaboravam processos para a coerção individual e coletiva de grupos sociais. Se os militares só conseguiam obter a displina mediante os castigos corporais, isto significa que não tinham conhecimentos técnicos ou competencia para exercer a função militar. Se fosse uma questão de solução punitiva a obtenção da displina, qualquer individuo ou grupamento social atenderia o critério.

Por outra lado, os juristas procuravam um modelo para a construção do corpo social, das instituições e de administração do poder.

A Justiça Militar e a Marinha confundem, ainda hoje, vários tipos de poder: o que presta justiça e formula uma sentença aplicando a lei e o que faz a própria lei. Confunde tambem policia com prisão, evidentemente pensando sempre em causa própria e daquilo que pode usufruir como se o pais fosse um grande quartel.

Já em 1790, durante a Revolução Francesa, discute-se uma nova organização do poder judiciário. Isto foi há mais de duzentos anos, quando em 3 de setembro de 1791, Thouret (2),  presidente da Assembleia Constituinte  apresentou a Constituição a Luis XVI.  Uma das grandes demandas na época era a abolição da tortura nos procedimentos criminais. Este fato foi precursor do artigo 5 da Declaração dos Direitos do Homem e do cidadão (1) de 1948 que diz:
"Ninguém será submetido à tortura, nem a tratamento ou castigo cruel, desumano ou degradante".

Ao se confundir os diferente poderes, de fazer a lei, de aplicar a lei e de punir, torna-se incerto o exercicio da Justiça: há tribunais, processos, partes litigantes, até delitos que sendo considerados 'privilegiados', se situam fora do direito comum e que torna esta justiça altamente irregular.

Para os militares, eles não abandonaram ainda a era da sociedade punitiva com a ostentação dos suplicios e ainda não chegaram a sociedade disciplinar onde deve prevalecer a sanção normalizadora, a organização, a disciplina e a vigilância hierarquica. Falta grandeza aos militares de reconhecerem seus erros, abandonarem os castigos corporais e participarem nos avanços das instituições sociais.

Durante todo o seculo XVIII e XIX, na Europa, forma-se uma nova estrategia para o exercio do poder de castigar, que é fazer da punição e da repressão das ilegalidades uma função reguladora, coextensiva a sociedade. Não punir menos, mas punir diferente. Punir com uma severidade organizada e normatizada, para punir com mais universalidade e necessidade. Trata-se de uma nova politica em relação as ilegalidades.

Calcula-se que em 1910, as guarnições compunham-se de 50% de negros, 30% de mulatos, 10% de caboclos, e 10% de brancos. Parte desses elementos eram recrutados a força e muitas eram meninos 'de rua'. Não existia uma politica para a criança o e o adolescente. Não se fazia um exame para verifcar as aptidões. Os recrutados em verdade eram muitas vezes sequestrados nas ruas e obrigados a servir. Nenhum exame ou teste era realizado. O exame permitiria qualificar, classificar e organizar. O exame supõe um mecanismo que liga um certo tipo de formação de saber e aptidões a uma certa forma de exercicio de poder. O exame cercado de todas as suas tecnicas documentárias, faz de cada individuo um 'caso': um caso que constitui um objeto para o conhecimento e também uma tomada para o poder.

O exame como fixação das diferenças individuais indica bem a aparição de uma nova modalidade de poder em que cada um recebe como status sua própria individualidade, ligado que está aos traços, as medidas, aos desvios, as 'notas' obtidas que o caracterizam e fazem dele um 'caso'. Evidentemente que esta evolução não interessava as lideranças militares da época, pese a que uma das revinvidicações dos marinheiros era justamente o aprendizado.

As disciplinas e, a sociedade disciplinar, marcam o que poderia se chamar troca de eixo politico da individualização. Nas sociedades de regime feudal, por exemplo, a individualização é maxima do lado da soberania e no alto do poder. Numa sociedade disciplinar o poder se torna cada vez mais anônimo e mais funcional e mais 'descendente'. Nós temos hoje o fenomeno das 'redes sociais', twitter, blogs, midias alternativas, etc, numa clara nova modalidade de poder crescente.
O direito de punir era um direito do soberano, do imperador. Ora, o imperio e, D. Pedro II, já não esavam mais no poder, haviam terminado recentemente. Mas o direito de punir e punir o corpo, continuava existindo. A mudança para a República ocorreu sem que fossem mudados os principios e a interligação de poderes na sociedade brasileira: o imperio existia sem imperador.

O castigo da chibata, que é um suplicio, é uma punição publica. Quem pune desta forma também está cometendo uma ilegalidade, ao menos aos olhos de quem está presente. A cidade punitiva, como a sociedade punitiva, foi praticamente abolida na Europa no inicio do seculo XIX. Também foi abolido toda punição pública. Mas, esta sociedade punitiva permanece contudo no Brasil ainda nos dias de hoje.

No direito monárquico, a punição é um cerimonial de soberania. Ela utiliza as marcas rituais da vingança que aplica sobre o corpo do condenado, estende sob os olhos dos espectadores um efeito de terror ainda mais intenso por ser descontinuo, irregular, descontrolado e sempre acima de suas proprias leis, com a presença fisica do soberano e do seu poder acima de tudo.

Para os juristas reformadores, a punição é um processo para requalificar os individuos como sujeitos de direito. Utiliza não marcas, mas sinais, conjuntos codificados de representações, cuja circulação deve ser realizada o mais rapidamente possivel pela cena do castigo, e a aceitação deve ser a mais universal possivel.

A prisão substitui o exercicio fisico da punição. A prisão é o suporte institucional, o jogo social dos sinais de castigo.

Podemos dizer hoje que, João Candido, foi um dos grandes defensores dos direitos humanos ao não aceitar a tortura como uma prática vigente na sociedade.

Com o levante vitorioso, os marinheiros negociaram o fim da chibata e a anistia. No dia 26 de novembro  entregaram os navios.

Contudo, Hermes da Fonseca não ficou satisfeito com o resultado e buscou estabelecer o estado de sitio. Mas para conseguir aquela medida de exceção era necessario um fato mais grave do que a revolta da Armada, pois com a anistia a crise se esvaziava e ele não poderia usar a violência.  Eis  então que surge um levante, no dia 9 de dezembro no Batalhão Naval. Foi reprimido a ferro e fogo, como o marechal-presidente queria. De uma guarnição de 600 praças só 60 sobreviveram.

Ficou claro também o oportunismo e crueldade do Marechal Hermes da Fonseca que se aproveitou do caso para tirar vantagem política da revolta: decreta estado de sítio, suspende as garantias constitucionais, e faz imperar o terror policial na capital, prendendo inúmeras lideranças  sociais e opositores.

O proprio João Candido junto com outros 17 marinheiros foram presos na masmorra da ilha das Cobras, de onde apenas ele e outro marinheiro, conhecido como 'Pau de Lira', conseguiram escapar. Dezesseis marinheiros morreram na  noite de Natal de 1910, asfixiados pela cal e água jogadas na enxovia. O comandante do Batalhão Naval, capitão-de-fragata Marques da Rocha, pegou as chaves, que deveriam ficar com o sargento carcereiro,  e  levou-as para o  Clube Naval onde pernoitou.

Pelas caracteristicas da prisão da ilha das Cobras e como procedeu o comandante Marques da Rocha, é de se desconfiar que era uma prática a aniquilação de elementos e opositores indesejados, jogando-os na enxovia e inundando  com cal e água para que morressem, apresentando um laudo médico de morte por 'insolação' como foi o laudo dos 16 marujos mortos no Natal de 1910.

João Cândido, considerado louco pelos médicos da marinha, foi transferido para o hospital dos alienados, situado na praia Vermelha, em abril de 1911, onde encontrou outro grande líder negro do inicio do século XX: o médico Juliano Moreira.

A junta médica do hospital, chefiada por Juliano Moreira, após submeter João Cândido a exames, atestou que ele não apresentava nenhum distúrbio.

Este, em verdade, é o grande documento histórico que atesta a veracidade e a verdade dos depoimentos do Almirante Negro.

Apesar de anistiados, uma centena de marinheiros é jogada nos porões do navio Satélite e desterrada para a região amazônica a fim de cumprir trabalhos forçados. Da Casa de Detenção foram retirados 293 presos e 45 mulheres, também trancafiados no navio. Sete marinheiros foram fuzilados e centenas de desterrados morreram na viagem sem volta nas mais atrozes condições.

Foi este mesmo Marechal Hermes quem mandou bombardear Salvador, em 10 de janeiro de 1912, causando muitas mortes, atendendo as ambições de seu ministro J.J.Seabra, que posteriormente tomou posse como governador da Bahia em março de 1912.

Venceslau Brás, eleito presidente em 1914, recebeu do militar Marechal Hermes um país endividado financeiramente com os banqueiros europeus  e com uma divida social, politica e humana com a nação.

Evidentemente que se pode ver a revolta de muitos pontos de vista: politico, humano, social, etc. Também podemos ver como uma iniciativa de renovação, modernização e empreendedorismo, bem como capacidade de liderança demonstrada por J.C. (João Cândido), valores tão fortemente desejados e buscado hoje em dia por empresas e governos. Afinal, não foi a toda que oficiais ingleses foram a bordo do Minas Gerais oferecer asilo aos marinheiros, que recusaram.

O término da chibata permitiu uma melhoria das relações humanas dentro do navio, com certeza facilitando futuros recrutamentos algo tão dificil naqueles tempos.

Até hoje, a Marinha não aceita a história de João Cândido e sempre procura apresentar sua propria versão. Mais bem faria que jogassem cal e água em todas as versões que denigrem a Revolta e demonstrassem um pouco de espirito de grandeza, magnanimidade e generosidade, reconhecendo que a Marinha se renovou e avançou com João Cândido.

Rio, 22/11/2010
Pedro Alves
1. Declaração Universal dos Direitos Humanos
    Adotada e proclamada pela resolução 217 A (III)
    da  Assembléia Geral das Nações Unidas em 10 de dezembro de 1948
2. Jacques Guillaume Thouret (30 abril 1746 – 22 abril 1794) foi   Girondino Frances revolucionario, advogado, presidente da Assembleia Nacional Constituente e vitima da guilhotina.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

RETRATO DA CULTURA NA 56° FEIRA DO LIVRO EM PORTO ALEGRE/RS

A escritora Telma Scherer é detida por manifestação e incentivo a leitura,
neste video que lembra momentos horriveis da nossa história: clic aqui para ver.

Será que voltamos aos tempos da ditadura militar?
Como é que ninguém gritou:
A ditatura já acabou há muito tempo!
Abaixo a Yeda Crucis!
Tarso Genro vem ai!

Algo semelhante ocorrreu no Rio em julho de 2010, no Largo da Carioca, onde apareceu a Guarda Municipal querendo levar um artista de rua preso.

Veja é 'Proibido Parar': clic aqui.

Se estivesse vendendo uma mercadoria, seria concorrencia 'desleal', contrabando, sonegação, etc...
Mas, o que vende o artista de rua?
Apenas sua força de trabalho. Com sua performance quer apenas manter-se de pé, reproduzir-se e reproduzir sua atuação, seu teatro, seu trabalho.
A prefeitura vai agora querer expropriar também a força de trabalho de quem, a única coisa que tem para oferecer é o seu proprio corpo?
Se fosse o caso, deveria chamar os fiscais do ministerio do trabalho, para verificar o empregador, recolhimento de INSS, etc ... para com isto se certificar que vão, eles, fiscais, governo, Estado, se apropriar do excedente do trabalho produzido, não importa se existe suficiente 'remuneração' para o artista de rua sobreviver!
A Telma está neste momento vivendo uma situação que a coloca no limitrofe da população dos 'Sem Teto' e sem trabalho. A performance por ela feita consiste entre outras coisas expor suas dividas pessoais.
Não há dúvida que é chocante para a Guarda Municipal ver a indisciplina de um artista de rua. Deve-se ter um patrão a quem obedecer, estar preso e situado dentro de uma corrente hierárquica e de dominação. Só resta a GM transformar a 'ilegalidade' aparente em deliquência permanente levando o artista para o sistema policia-prisão.
Com certeza Yeda Cruzes+ ama Eduardo Paes e vice-versa no 'choque de ordem' e muita descarga eletrica nos que estão abaixo, morando não se sabe aonde, desde que não perturbem os que moram no andar de cima ...
Debaixo do 'choque de ordem' o que ocorre é a expropriação do espaço público, nas áreas mais nobres da cidade, seja no centro da cidade, nos lugares e nas praias turisticas.
Isto ocorre ao apagar das luzes do governo tucano de Yeda Cruzes+, enquanto que criminosos perigosos passam ao largo, nos lembrando a Ditadura Militar, que achava que podia levar qualquer pessoa presa a qualquer hora e de qualquer lugar.

Rio, 15/11/2010
Pedro Alves